CENA 1: BAC SI TUAN
Não era exatamente dor-de-garganta: quando esta bate, há uma queimação atrás na garganta, e desta vez a dor era na frente. No pomo-de-adão. Deixa correr uns dias; às vezes até eu me esqueço daquele pontinho doído na junção do pescoço com a cabeça, que depois se transforma num pequeno inchaço. Até que tomo coragem e vou à clínica local para estrangeiros, reluzente de instrumentos modernos, e peço para ver um dos médicos. Do fundo da sala, levanta-se um jovem, sorriso embaraçado nos lábios e um pedaço de pizza na mão. Desculpa-se: é a festa de despedida dele que está voltando para Israel, de onde é originário. Como o médico-proprietário também, aliás; graças a Deus que não foi este que me atendeu: sujeito agressivo que parece que dá uma interpretação extremamente própria ao Juramento de Hipócrates e que adora assustar os pacientes com a lista de infindáveis possibilidades de morbidez encontráveis neste detestável (para ele) país.
Bem, o jovem doutor acaba sua pizza e sua cocacola, lava as mãos e me leva para uma das salas de consulta. Radiografia, exame de sangue: nada. Provavelmente alguma infecção virótica. Digo meu aliviado obrigado e me vou. Volto à rotina e deixo os dias passar, sem quase mais perceber aquele pontinho de dor e aquele inchaço. Até que uma bela manhã de domingo eu acordo, e o pequeno inchaço virou um papo que balança para-lá-para-cá, e o pequeno ponto de dor deixou de ser uma presença discreta para ser uma presença constante. Telefono para a pobre da minha intérprete – pobre, porque está tentando convalescer de uma pneumonia que não há meios de sarar – e invoco seus cabedais de conhecimentos médicos (ela é doutora pela Universidade de Havana): preciso te ver, An My. Vou dar uma passada em tua casa agora. “Vou” e “agora”: nem me lembrei de incluir um “por favor”. E lá fui, eu e a incômoda realidade de meu pescoço balouçante, a tirar a doutora-intérprete de seus cuidados e lançá-la nos meus. Como vemos frágeis os médicos, quando estes adoecem! Não têm o direito de fazê-lo! Comoveu-me aquela mulher de repente enfraquecida, que de sua fraqueza fez força para me ajudar. Levantou-se do sofá onde estava sentada, e seu olhar passou imediatamente de amiga doente para médica: um tipo diferente de foco, uma maneira diferente de ver, examinar, penetrar as coisas. Examinou o balouçante e dolorido pescoço. “Hay que ver eso… Haré los contactos, y Usted irá ver al médico el Lunes mismo. Pero… no me parece que hay que preocuparse.” Volto para casa agarrado nesse tênue, bruxoleante encorajamento, e o inchaço do pescoço balançando pesado, para-lá-para-cá.
Não foi no Lunes, mas sim no Martes. Acompanhado do segundo intérprete, Khoa, fui ao Hospital Central de Medicina Tradicional do Exército Popular do Vietnam. Recebeu-nos a DaiTa Bac Si (Coronel Doutora) Huyen, que estava esperando e disse que o Dai Trung Bac Si (General Doutor) Tuan, o Diretor-Geral do hospital, estava esperando-me na sua casa, pois tinha que se preparar para uma viagem naquela mesma manhã. Ela iria conosco, para indicar o caminho. Chegamos à casa do Figurão: no jardim de frente, enormes esteiras com ervas e raízes secando ao sol. Num banquinho, uns quantos pacientes, pacientes, esperavam e continuaram a esperar: Ong Dai Súu fura a fila. O Figurão era figurão mesmo: apesar de receber-me em pijamas e chinelo, transpirava autoridade. Alto, fidalgo. Acompanhava-o um outro coronel-médico, este de uniforme e com todo o jeito de chefe-de-estado-maior. Khoa abriu a sessão oferecendo o presente que havia trazido em meu nome: uma garrafa de champanhe. Depois, os quatro me olharam, esperando que eu dissesse a que tinha vindo. Fiz uma introdução circunloquial de praxe: a honra de ser recebido por personalidade tão alta que havia consentido em dispor de seu tempo para me atender, o interesse com que o Brasil via a Medicina Tradicional vietnamita, a existência de longa tradição de medicina herbária no Brasil, e este diabo de pescoço que balança para-cá-para-lá, e está doendo! Fui afrouxando a gravata e desabotoando o colarinho para Bac Si examinar, e ele estendeu a mão e segurou o meu pulso. Durante uns minutos ficou em silêncio, sentindo as pulsações. Silêncio também na sala: o coronel e a coronela seguindo o procedimento na maior concentração, olhares médicos focalizados; o intérprete Khoa no seu “waiting mode”.
Então o Doutor-General começou a falar, sem largar meu pulso; mas não falava para mim, mas sim com os outros. Não sei o que era, pois falava-se em vietnamita, mas notei que, de repente, eu quase que não tinha mais importância: o papo não era mais o meu, que balançava, mas sim o deles, que rolava solto, na maior descontração. Riam, falavam, a Coronela deu um tapa nas costas do meu intérprete, enquanto lhe dirigia um olhar malicioso e dizia algo que certamente tinha a ver com sexo (o “body language” do animal humano é bastante claro). Sempre gostei dessa maneira dos vietnamitas gostarem da companhia um do outro: estão juntos, e em geral estão conversando, dizendo-se coisas, trocando conversa fácil, curtindo-se. Tocou o telefone, e Bac Si Tuan, sem largar meu pulso e sem interromper o fluxo da conversa, apenas olhou para o coronel, que foi atender. Mais conversa, e chá: amarguíssimo, servido em xícaras minúsculas. Bac Si larga meu pulso, tira um maço de cigarros do bolso do pijama, me oferece um: aceito, apresso-me em acender o dele, apressa-se em acender o meu. Tomamos o chá, e a conversa segue solta. Por fim, o Figurão dita alguma coisa, que o Coronel eficientemente anota, e depois passa para a augusta assinatura. Espicho o olho, e confirmo o que já me fora dado perceber antes: ao contrário dos médicos ocidentais, que parecem fazer da má caligrafia (a “letra de médico”) uma característica profissional, os médicos vietnamitas – como aliás a população do país, de forma geral – possuem invejável elegância no escrever. Bac Si Tuan assina e passa-a a Khoa, que vai ao jardim aviar a receita. Nessa altura, acho melhor abotoar o colarinho e apretar o nó da gravata.
Quando Khoa volta, pergunto o que tenho. A resposta, embora sincera e dada com dignidade, foi críptica: o Embaixador tem uma bolha de ar na garganta, causada por preocupações. Entendo as preocupações, mas não a bolha de ar na garganta; mas acho que não é hora de pedir maiores explicações. Esperarei que An My se cure, e então vou explorar um pouco mais esse universo conceitual. Chega o pacotão de remédios, cheio de pacotinhos de papel com ervas várias, mais caixas de pequenas esferas de plástico que contêm dentro uma bola escura feita de uma pasta também de ervas, e caixinhas de plástico com minúsculas pílulas prateadas. Com as ervas secas, há que fazer um chá, e tomá-lo no decorrer do dia, como se fosse água. A bola escura, mastigar uma pela manhã, uma pela tarde. E as bolinhas – que reconheço: são feitas de alcaçuz, e meu Padrinho (QEPD) sempre nos dava, eram chamadas “Sen-Sen” – tomar até 30 delas no correr do dia. Apesar de em sua composição entrarem frutas – o lichí e uma espécie local de ameixa -, o chá resultou ser uma mezinha horrorosa, marron, escura, cheia de palhas e raízes, um tormento de tomar. A bola pastosa não fica atrás, em termos de gosto rebarbativo, terrível! Só o “Sen-Sen” tem algo de agradável.
O inchaço e a dor sumiram.