9 x 7 = 63!

Renato Prado Guimarães

A compra era casual e leve. Escolho o produto, cato três pacotes e os levo ao Caixa. A moça conta, aplicada, as três unidades, verifica o preço de cada uma - 45 reais. E aí puxa uma máquina de calcular e começa a digitar os números, com cuidado e vagar.  Impaciente, interrompo: “Não precisa! São 135 reais”. Ela não me prestou atenção e concluiu zelosamente o cálculo na máquina. Mas aí virou para mim, atônita: “Como é que o Senhor sabia?

 

Uma vergonha!”, como proclamou o então Ministro-filósofo Renato Janine Ribeiro, da Educação, ao topar com os resultados lamentáveis da mais recente Análise Nacional de Alfabetização: 57 % do terceiro ano não fazem conta, 22% não leem qualquer texto. Sem prejuízo de minha solidariedade plena ao xará e insigne primo, o que me impressionou com mais força, no incidente do Caixa, foi a lembrança de cena equivalente (embora oposta) de um conto publicado em 1957 (!) pelo grande Isaac Asimov, escritor e profeta, um dos fundadores da “Science Fiction” moderna.

 

No futuro distante, o homem vive numa sociedade totalmente automatizada.  A inteligência artificial concebe, planeja e executa tudo; o homem se acomoda a ponto de esquecer até mesmo a habilidade rudimentar de fazer contas. A Federação Terrestre está em guerra contra Deneb e o conflito é travado por mísseis de alcance interestelar, pilotados por computadores caros e difíceis de repor. De resto, evoluindo por conta própria, conforme os mesmos processos lógicos e impulsos operativos, os computadores de um e de outro lado funcionam igual em terra e no ar, atacam e defendem na exata previsão do que o adversário fará, e assim se compensam e neutralizam reciprocamente. Impasse bélico e informático perene, incontornável, no longo, dispendioso conflito.

 

Mas eis que um dia, numa sala reservada do Novo Pentágono, um modesto técnico de manutenção é submetido a testes para verificar certas habilidades nele casualmente notadas por um Programador de Primeira Classe.

 

“Myron Aub, mostre aqui ao General e ao Deputado o que você sabe fazer. Por exemplo: quanto são 9 x 7?”. Myron hesita um momento mas responde: “63”.

 

O general coça a cabeça, cético; como saber se está certo? Na dúvida, tira o computador do bolso e confere: “63!”, exclama, meio aturdido. Mas, incrédulo ainda, questiona: “Ele deve ter aprendido de cor no computador, é um farsante”.

 

O Programador de Primeira aumenta a aposta: “Mais do que isso, Aub memorizou algumas operações e pode computá-las no papel com números de vários dígitos”. “Um computador de papel?”, pergunta o Deputado, mortificado. “Não, só uma folha de papel, com sinais copiados do computador.  Me sugira um número. Dezessete? E o Senhor, General, que número propõe? Vinte-e-três? Aub, multiplique esses números e mostre como o faz”.

 

O resultado, claro, os leitores já conseguiram, copiando e rabiscando escondido no papel, ou, à socapa, recorrendo ao smartphone. O General e o Deputado tiveram de conferir, pasmos, em seus versáteis computadores de mão, que não erraram: “391”.

 

Dessa conversa nasceu um empreendimento altamente secreto, o Projeto Número, de descoberta (ou reconstrução) da matemática, da soma à subtração, da multiplicação à divisão, à raiz quadrada, à raiz cúbica, aos logaritmos, etc. etc.

 

Um dia o general da estória, agora convencido e confiante, se dirige aos participantes do projeto com entusiasmo visionário: “Nosso objetivo é simples, senhores: substituir o computador! Pode ser fantasia, agora, um simples sonho; mas no futuro eu antevejo “the manned missile”! (o míssil tripulado pelo homem!). O fator humano seria decisivo para a vitória, ao acrescentar à máquina iniciativa e imprevisibilidade nas operações. Além de que teria baixo custo (“um homem é muito mais dispensável do que um computador”).

Ao ver que destino trágico passavam a ter os exercícios lúdicos que começara como mero hobby, Myron Aub se desespera e acaba se matando. O que não impede que o Projeto siga seu curso letal. À beira da cova do pupilo, o Programador de Primeira Classe não se emociona: "Aub já é dispensável, o que começou não tem volta e nos levará um dia aos mísseis tripulados, e a quanta coisa mais? Nove vezes sete são sessenta e três, e eu sei disso sem precisar de um computador! O computador está em minha cabeça! É espantoso o sentimento de poder que isso me dá”.

 

O mundo dá voltas, no espaço e também no tempo. Quem sabe a moça do caixa tenha razão ao renunciar à capacidade de pensar e calcular. Quem sabe, menos que uma vítima de nosso péssimo sistema de ensino, ela seja uma precursora involuntária de novos tempos... Afinal, há que reconhecer: está acontecendo com todos nós. Eu evito lápis e papel e vou à calculadora quando a conta envolve 4 dígitos ou mais.  

Não resisto aqui a citar, de minha Colinenses 45: 

      Sou de outros tempos.

De tempos do passado, sim, mas talvez também do futuro...

     Retrógrado ou visionário, eu?

 

Quem quiser entender, que vá ler (ou reler) a tal crônica 45. E quem chegar lá me faça o favor de ver também a seguinte, na qual tiro com deleite minha “Desforra Informática”.


P.S. – O nome do conto é “O Sentimento do Poder”. Escrito quando o computador estava de cueiros, começando a ser algo mais do que uma singela calculadora.  É um clássico da Science Fiction. Quem quiser ler na íntegra, procure na net “The Feeling of Power+Asimov”; o texto em inglês parece já estar em domínio público. Em português, não encontrei. De qualquer maneira, esta crônica deve ser vista como reverente propaganda do conto, não seu plágio.

Se plágio fosse, seria por seu avesso lógico!

 

P.S. 2 - De livro de memórias inédito de meu pai, Mario Mazzei Guimarães, a propósito de seu aprendizado de aritmética na Escola Rural da Fazenda Mandaguari (Colina/Jaborandi), nos anos 1918 a 1920 :

 

"Da soma, dona Safira (a professora) passou à subtração, à multiplicação e à divisão, sempre partindo de exemplos acessíveis. E lá vinha a tabuada (...). Ela esclarecia:

 

- ‘A gente não deve gastar o raciocínio, se a memória pode guardar’. Uma precursora do computador..."

 

Não me ocorreu perguntar-lhe o por quê preciso dessa conclusão de meu pai.

 

Intrigantes, essa conclusão do pai e aquela norma sobre memória humana e digital de Dona Safira (Na verdade se chamava Esmeralda; papai tinha a mania de inventar nomes alternativos, pseudônimos, para seus personagens. Embora em geral muito chegados aos originais, os  onomásticos da escrita perturbavam os ávidos leitores da família; minha bisavó Amália virou Clara naqueles escritos, o que só vim a decifrar adulto, na casa dos 40).