A parte é maior do que o todo

Renato Prado Guimarães

Fim dos anos 1950. Gritaria danada no Rio e nas capitais dos Estados no Norte do Brasil.  Governadores, deputados, senadores, jornais, o comércio clamando por café. Não o cafezinho de balcão, mas as sacas valiosas de 60 quilos, que estariam faltando em nosso setentrião, cujas populações já não podiam partilhar com o país o saudável hábito da bebida. Na argumentação oportunista e atrevida dos mais audaciosos, os do Sul estavam discriminando contra os brasileiros do Norte, sonegando-lhes um dos grandes fatores de integração e identidade nacional. E isso com os armazéns de São Paulo e Paraná abarrotados, a ponto de haver quem sugerisse voltar-se a queimar os estoques da rubiácea excedente e excessiva, a fim de sustentar os preços internacionais.

 

O Instituto Brasileiro do Café (já extinto) mandava e mandava os grãos para o Norte, mas poucos chegavam lá. A maior parte era contrabandeada no caminho, com lucros formidáveis; em função do “confisco cambial” na exportação regular, as sacas vendidas fora, e “por fora”,  ilegalmente, valiam diversas vezes o preço do mercado de consumo interno. Muito barco de cabotagem “afundou”, carregado de café, para ser visto mais tarde, afanoso após as indenizações de seguro (casco e carga),  trafegando entre portos do Caribe com bandeiras de ocasião. Via-se o barco,  ressurreto das águas, mas nunca mais o café, que valia muito mais.  Verdade se diga, a bem da unidade nacional, que nem só no Norte do país a lucrativa fraude ocorria, pois muitas sacas das pujantes colheitas paranaenses se naturalizaram paraguaias e saíram pelo Prata isentas do “confisco” legal.

 

A fim de proteger-se da intensa pressão política por mais café, para o consumo ou o proveitoso contrabando, o IBC tenta mostrar que seus envios já estavam muito acima do consumo histórico do  Norte. Em desespero, resolve promover uma “pesquisa de mercado” para tentar estimar o consumo real. Aventura doida, naqueles tempos, sobretudo. Fui um dos membros da pequena e inexperiente equipe (acho que éramos cinco jovens, quatro cariocas e este paulista), que se espalhou pela imensidão amazônica, e contígua, batendo de casa em casa, em áreas pré-selecionadas como amostra, para perguntar quanto ali se costumava consumir. Pessoalmente, estive em Porto Velho, Rio Branco, Manaus, Itacoatiara, Parintins, Belém, Bragança, São Luís, Caxias, com pousos saborosos em Borba, Humaitá, Manicoré, voando nos velhos e rústicos DC-3 da Real ou nos românticos Catalina anfíbios que a Panair ainda conservava, sabe-se lá como. Os vôos do e para o Sul eram mais sofisticados, nos charmosos, elegantíssimos, Super G Constellation da Varig. 

 

Da aventura lembro, sobretudo, da escala em Itacoatiara (ou era Parintins? A memória está confusa, uns 70 anos depois). Desembarquei do Catalina no fim da tarde, galguei, escorregando a cada passo, a barrenta barranca do porto, e em cima perguntei, exausto: ”Onde é que posso encontrar um hotel?” Responderam-me: “Aqui só tem uma pensão, a “Night and Day”.  Esclareci prontamente que não era desse gênero de acomodação que carecia e a tréplica veio aos risos: “A Night and Day é de família, os  nomes das outras são....” (lamento ter esquecido; eram grosseiros mas de uma inventividade até poética). 

 

Lá fui eu para a pensão familiar, onde me recebeu o dono, Seu Jacó. Surpresa dele: “Mas onde está a sua rede?”. Ante meu desconcerto, ele esclarece: “Aqui todo mundo viaja com a rede. Num tem cama não”. Solícito, contudo, oferece-me uma rede lavada, de estepe, e me recomenda pendurar logo, enquanto não enchia o galpão aberto da pensão (sem paredes, na verdade só uma cobertura de sapé, ou outra fibra amazônica equivalente – não sei). Esperto, escolho um canto ainda meio vazio, muito gancho disponível. Meu jantar foi só um café preto com pão e manteiga Aviação (aquela salgada, rançosa, de lata, que hoje me dá saudade). Cedo se apagaram as lamparinas e fomos dormir, todos os hóspedes. 

 

Choveu forte. E justamente no canto por mim espertamente escolhido, havia uma goteira, que pingava impiedosa sobre minha rede. Se fosse cama, podia afastar um pouco e desviar, mas os ganchos, não tinha como mudar, e os demais estavam já tomados. Dormi (?) sob a goteira, coberto por uma capa italiana de contrabando, em nylon impermeável (novidade na época), que trouxera comigo. Ao fazer dormir minhas filhas, quando contava depois a estória, enfeitava: amanheci sequinho, pois  consegui um balanço de rede  tão preciso e compassado, mesmo dormindo,  que o pingo caia sempre depois de a rede passar, prá cáá, para láá - quando eu não estava embaixo...

 

No dia seguinte fiz uma das melhores refeições de minha vida, um tucunaré preparado pelo dono da “Night and Day”, acompanhado daqueles ingredientes inimitáveis da cozinha amazônica, das farofas às bananas, passando por outros frutos, ervas, raízes, folhas, etc. 

 

No mesmo almoço recebi uma preciosa lição prática de sociologia do Direito. O Juiz local almoçava regularmente na “Night and Day”, e na conversa descreveu sua carreira ao iniciante universitário da São Francisco: a princípio, no selvagem Alto Rio Negro, só tratava de Direito Penal; na medida em que avançava, transferido para comarcas mais adiantadas, passou a lidar com Civil; em Itacoatiara (ou Parintins?) já tinha de cuidar de Comercial; na fase a seguir, com a Capital, Manaus, já na mira das promoções, começava a preparar-se para o Fiscal.  Antes de partir de Itacoatiara (Parintins?), cacei na fonte luminosa da praça central uns filhotes de jacaré (15/20 cm), de presente para a família de minha noiva, que adorava bicho exótico. Podem ter sido os primeiros da espécie a viajar de Super G Constellation. 

 

Nada disso tem a ver com o título da crônica, que passo agora a justificar; mas descreve o contexto e os antecedentes da descoberta daquela parcialidade esdrúxula, agigantada, da parte maior do que o todo no Acre - além de permitir ao Autor o prazer de excursionar, ainda que brevemente, por paragens remotas e reconfortantes de sua mocidade relembrada. 

 

Na equipe dos “pesquisadores” amazônicos, coube a mim, ao final, a tarefa de organizar os dados recolhidos na amostragem para estimar o consumo per capita  de cada cidade e, por extensão, de cada Estado. Tarefa complicada pela insuficiência dos dados demográficos, e mesmo suas contradições. Não é que, ao levantar os números de habitantes, em 1959, do Estado do Acre e de sua Capital, Rio Branco, descubro o impossível: a Capital tinha população superior à do Estado, embora neste incluída? Rio Branco tinha mais habitantes do que o Acre, ela própria considerada no cômputo relativo ao Estado. Para ser bem claro, em números figurados: Capital, Rio Branco: 80.000; Estado do Acre, inclusive Rio Branco: 65.000. Seria como São Paulo, Capital, ser mais populosa que o Estado de São Paulo – Capital mais interior.

A parte maior do que o todo?

 

Pensei logo em erro gráfico, e fui ao próprio IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mas neste me confirmaram que a Capital era mesmo mais populosa que o Estado inteiro. Expliquei minhas razões para não entender, mas meus interlocutores foram irredutíveis, as tabelas originais, que chegaram a consultar, registravam aquela mesma suposta discrepância. Mas minha teimosia impertinente e inconformada deve ter intrigado alguém no Instituto, pois dias depois me telefona um senhor com título de Professor, nome arrevesado e sotaque alemão, meio autoritário: “Me disseram que o Senhor está questionando os dados do IBGE!”. Respondi que sim e expliquei por quê. Ele riu, e zombou, sarcástico, de minha ignorância: “Mas como o Senhor quer que seja de outra forma?” Em seguida, despejou sobre mim dados e fórmulas insondáveis, raciocínios matemáticos elaborados - daquela sabedoria peremptória  que faz entender menos ainda.

Troco em miúdos o que pude captar da aula arrogante; se o leitor não for burro, tal qual o Autor é, vai certamente entender como a parte pode ser maior do que o todo.

 

No intervalo sem novos levantamentos entre os censos decenais, o IBGE estimava os dados relativos à população a partir do censo anterior, corrigindo-os, anualmente, à taxa de crescimento na década àquele censo precedente. Em outras palavras: o número levantado em 1950 era projetado até 1959 com base na taxa de crescimento apurada entre 1940 e 1950. Como naquele período 1940/1950 o ritmo de crescimento da Capital, Rio Branco, fora muito mais elevado do que o observado para o todo do Estado menos a Capital, o resultado das projeções fazia a Capital mais populosa do que o Estado que a abrangia!

 

Entenderam? Parabéns, sinceros! O leitor é gênio! Em meu caso, li e reli, e treli o que havia escrito eu próprio; ao cabo voltei a questionar-me, angustiado: a parte maior do que o todo, este cabendo na parte...!!!

Os artifícios da estatística desafiam a lógica mais sólida, o bom-senso mais corriqueiro. Não por menos há tanta piada estatística. Como a do Manuel, que viajava de avião, sempre, com uma bomba na bagagem, pois os cálculos de probabilidade praticamente excluem a possibilidade de duas bombas coincidirem no mesmo vôo; ou a do Joaquim, que viajava sempre com um laço amarrado no dedo, encorajado pela constatação estatística de que avião nenhum havia caído com um passageiro de barbante na mão... 

 

Extravagância lógica equivalente à do IBGE e do Acre só me lembro de ter visto em Fernando Pessoa, mas nele sob licença poética, não estatística. Em seu paganismo metafísico, “num dia excessivamente nítido”, o heterônimo Alberto Caeiro entrevê “o que talvez seja aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam”:

 

 Vi que não há Natureza, 

 Que Natureza não existe,

 Que há montes, vales, planícies,

 Que há árvores, flores, ervas,

 Que há rios e pedras,

 Mas que não há um todo a que isso pertença,

 Que um conjunto real e verdadeiro

 É uma doença de nossas ideias.

 A Natureza é partes sem um todo, 

 Isto é talvez o mistério de que falam. 

 

Com licença poética e religiosa, Gregório de Mattos (sim, o “Boca do Inferno”!) explora igualmente a intrincada relação entre a parte e o todo para explicar os sacramentos católicos:

 

O todo sem parte não é todo, 

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga que é parte, sendo todo 

 

Em todo sacramento está Deus todo,

E todo assiste inteiro em qualquer parte,

E feito em partes todo em toda parte, 

Em qualquer parte sempre fica todo.



Só faltava citar o exercício do Padre Antonio Vieira em torno da totalidade da parte. Mas não consigo encontrar o sermão certo. O que ao cabo é melhor, pois do contrário vou acabar dando na Santíssima Trindade, que não é matéria para estas crônicas profanas.