Botão-surpresa

Renato Prado Guimarães

Como em toda Embaixada, na de Montevidéu havia um plantão de comunicaçõesaos sábados. Um funcionário devia ir à Chancelaria e nela permanecer a fim de processar telegramas e outras mensagens que chegassem, e tomar as providências em cada caso cabíveis. Missão amena, mas pouco apreciada, perturbadora do fim de semana. Pretexto é que não faltava para esquivar a necessária tarefa.

De repente, passo a notar uma boa-vontade surpreendente dos funcionários em aceitar a escala dos plantões, até mesmo mais de um funcionário candidato a integrá-la, no mesmo dia. Quê que é isso, me perguntei, intrigado: disputa por plantão? Inédito, inaudito.

Um sábado, de volta de minha caminhada pelas aprazíveis e repousantes ruas da cidade,  resolvo parar na Embaixada para ver se alguma mensagem tinha sido recebida. Entro e logo me alarma um rumor de vozes, que contrasta com o silêncio que se costuma esperar nos plantões, normalmente solitários. Subo ao primeiro andar e noto que o barulho vem de minha sala! Abro a porta e me deparo com cena inusitada: quatro plantonistas disputando um acirrado campeonato de futebol de botão em cima da mesa de reuniões, transformada em estádio!

Os plantonistas (ou botonistas) se assustam, temerosos da bronca inevitável, e gaguejam desculpas frouxas, enquanto vão logo arrebanhando seus times e demais apetrechos – traves, bolas, lixas, etc. Um deles tenta limpar o giz das marcas do campo, desastradamente.

A bronca veio, e irada, mas não pela razão que os flagrados estavam esperando - a de jogar botão na Embaixada e, mais grave, na sala do Embaixador. A bronca foi pela falta de consideração, imperdoável, de se terem esquecido de convidar o Chefe.