Julio María Sanguinetti, duas vezes Presidente do Uruguai, foi certamente dos melhores oradores de seu tempo. E ainda deve sê-lo, pois seus talentos não são dos que diminuam com os anos. Douto, consistente e criativo no conteúdo, sóbrio mas invariavelmente brilhante na expressão, elegante nos gestos e na postura, era ao mesmo tempo cativante e convincente - os dois atributos principais da eloquência, que associava na medida mais alta e própria. Ressaltava em seu Uruguai, onde a oratória é cultivada como parte das boas maneiras, e igualmente nos foros de âmbito maior, latino-americano, nos quais era frequentemente chamado a falar em nome dos colegas Chefes de Estado na abertura ou encerramento dos mais importantes eventos.
Em busca de subsídios para preparação de viagem sua, de Estado, ao Brasil, pesquisei arduamente nos anais de visita equivalente em seu primeiro mandato. Buscava fatos e inspiração para os discursos a serem proferidos na nova viagem. Tive uma grande e inesperada frustração: não encontrei o texto de nenhum discurso do grande orador. Só, num amarelecido recorte do “Estadão”, encontrei referência aos aplausos, de pé, que um discurso seu em São Paulo havia recebido, de um público surpreso e entusiástico ante a qualidade de sua oratória.
Em busca de subsídios para preparação de viagem sua, de Estado, ao Brasil, pesquisei arduamente nos anais de visita equivalente em seu primeiro mandato. Buscava fatos e inspiração para os discursos a serem proferidos na nova viagem. Tive uma grande e inesperada frustração: não encontrei o texto de nenhum discurso do grande orador. Só, num amarelecido recorte do “Estadão”, encontrei referência aos aplausos, de pé, que um discurso seu em São Paulo havia recebido, de um público surpreso e entusiástico ante a qualidade de sua oratória.
Sanguinetti fazia questão de falar sempre de improviso.
No vôo para o Brasil, a bordo do avião da Pluna, revíamos os eventos do programa acertado para a nova viagem – dentre eles, claro, os discursos a proferir, em Brasília, em São Paulo, em Porto Alegre. Houve comentários de assessores seus quanto a que o Presidente, consumado orador, tiraria de letra aquelas obrigações. Ocorreu-me então o audacioso reparo: o consumado orador tem um grave defeito – é um orador sem memória, não fica registro do que diz, sua bela oratória fica sem história. Contei então sobre o malogro de minha busca. Não sei que efeito terá tido minha atrevida observação. Mas houve quem me dissesse que nos anos vindouros havia quem sempre gravasse os improvisos do Presidente. (Não sei se a gravação funcionou, pois anos mais tarde o Presidente me escreveu para dar-me plena razão naquele reparo de tempos atrás: ao esboçar ensaios que cogitava escrever e publicar, havia buscado inspiração e subsídio em discursos antigos e se dera conta, com desgosto e arrependimento, de que, efetivamente, sua cuidada oratória ficara sem história).
Diz-se que San Tiago Dantas também recusava ler discursos, falando invariavelmente de improviso – e sempre com perfeição e brilho. Conta-se que, Ministro das Relações Exteriores, seus assessores insistiram certa vez em que proferisse discurso previamente preparado, em função da delicadeza diplomática da situação de que iria tratar. Impaciente, concordou, mas com uma ressalva vaidosa: “Eu mesmo escrevo!” No dia aprazado, subiu à tribuna e leu, pausadamente, página a página, seu discurso – ainda uma vez brilhante, irretocável. Ao terminar, descuidado, deixou os papéis sobre o pódio. Seus assessores, atentos, correram para recolher a peça magistral, destinada a ser documento crucial de política externa. Murcharam, contudo, ao ver que as páginas nada continham, estavam em branco. O grande orador tinha simulado a leitura, lido o improviso...
No vôo para o Brasil, a bordo do avião da Pluna, revíamos os eventos do programa acertado para a nova viagem – dentre eles, claro, os discursos a proferir, em Brasília, em São Paulo, em Porto Alegre. Houve comentários de assessores seus quanto a que o Presidente, consumado orador, tiraria de letra aquelas obrigações. Ocorreu-me então o audacioso reparo: o consumado orador tem um grave defeito – é um orador sem memória, não fica registro do que diz, sua bela oratória fica sem história. Contei então sobre o malogro de minha busca. Não sei que efeito terá tido minha atrevida observação. Mas houve quem me dissesse que nos anos vindouros havia quem sempre gravasse os improvisos do Presidente. (Não sei se a gravação funcionou, pois anos mais tarde o Presidente me escreveu para dar-me plena razão naquele reparo de tempos atrás: ao esboçar ensaios que cogitava escrever e publicar, havia buscado inspiração e subsídio em discursos antigos e se dera conta, com desgosto e arrependimento, de que, efetivamente, sua cuidada oratória ficara sem história).
Diz-se que San Tiago Dantas também recusava ler discursos, falando invariavelmente de improviso – e sempre com perfeição e brilho. Conta-se que, Ministro das Relações Exteriores, seus assessores insistiram certa vez em que proferisse discurso previamente preparado, em função da delicadeza diplomática da situação de que iria tratar. Impaciente, concordou, mas com uma ressalva vaidosa: “Eu mesmo escrevo!” No dia aprazado, subiu à tribuna e leu, pausadamente, página a página, seu discurso – ainda uma vez brilhante, irretocável. Ao terminar, descuidado, deixou os papéis sobre o pódio. Seus assessores, atentos, correram para recolher a peça magistral, destinada a ser documento crucial de política externa. Murcharam, contudo, ao ver que as páginas nada continham, estavam em branco. O grande orador tinha simulado a leitura, lido o improviso...
Diz a lenda...