Língua bífida

Renato Prado Guimarães

Desde sempre achei que o português (refiro-me à língua, claro) é a única coisa que nos separa de Portugal e de nossos amigos e irmãos  lusófonos de África e Ásia, em tudo o mais tão próximos e queridos (plágio confesso de Bernard Shaw: não foi ele quem disse que “a Inglaterra e os Estados Unidos são dois países separados por uma língua comum”?).

Exagerado, eu? Pois não é que o Francisco Seixas da Costa, ex-Embaixador de Portugal no Brasil,  diplomata de carreira, político e escritor, disse certa vez, no programa “Roda Viva”, da TV Cultura, e sem rebuços, ser inteiramente favorável “à legendagem dos filmes portugueses exibidos no Brasil”!

Legendagem em português, claro.

Parece até piada de português! Filme português com legendas em português, para público que fala português! Mas eu entendo as razões e as acho plenamente procedentes; vira assim piada luso-brasileira,  solidária. (Os portugueses dizem que não há propriamente piadas brasileiras de português, pois o que elas contam já é em geral a pura verdade; o que talvez valha igualmente para a recíproca, das piadas portuguesas de brasileiro, que também as há - e muitas, e ótimas!).

 
Na verdade, eu próprio não consigo entender bem nossos patrícios de além-mar, no rádio, na televisão, nos discos  ou mesmo pessoalmente. Quanto trabalho não me deu ouvir repetidamente os CDs da Amália Rodrigues, para “traduzir” sua música e entender a ternura exasperada de suas letras...

Seixas da Costa chama atenção, aliás, para algo que nunca me ocorrera: nós, brasileiros, temos dificuldade para entendermos o que o português de Portugal diz, mas os portugueses já entendem bem o que nós falamos. Gentil, explica: “Foi a entrada da novela que tornou natural nos nossos ouvidos a maneira brasileira de falar o português”.

Vale, a observação, para Portugal e também suas demais ex-colônias lusófonas (como se viu, de resto, no caso da Otográfica angolana, sucesso em texto passado destas crônicas cotidianas). Ignacio de Loyola Brandão contou esta outro dia, em sua coluna no “Estadão”, a propósito de um hotel em Paris no qual estava hospedado - por sinal, como assinala, em quarto que já havia abrigado Gabriel Garcia Márquez:

Um duas estrelas muito simples, simpático, limpo, pessoal afável, café da manhã servido por uma cabo-verdiana alta, a Alice. No segundo dia, ouvi-a falando português e me admirei:

'- Então, você fala português?

- Pois desde ontem estou a falar português contigo e você me respondia em francês'.


Pois é...

Idioma igual, sons diferentes.

Língua bífida, foneticamente, ou ouvidos moucos, os brasileiros?

Situação similar, embora inversa, à que vivemos com relação ao espanhol: nem nós, nem eles, falamos (falam) com fluência e propriedade o outro idioma, mas nós entendemos melhor o deles do que eles o nosso.

Sempre me perguntei por quê.

Um dia, tive oportunidade de consultar meu colega e filólogo máximo, Antonio Houaiss, num encontro em Caracas. Ele alegou não estar seguro, mas avançou uma hipótese engenhosa, que a meu ver faz sentido: o espanhol tem pouquíssimos sons vogais (somente a, e, i, o, u, bem nítidos, sem nuances), o português tem muito mais (parece que 14), como, de resto, as principais línguas ocidentais, e isso poderia fazer a diferença. Eles não têm, por exemplo, as vogais nasais, sons como ã ou õ.  O “hispano-hablante” não diz Copacabãna, mas sim Copacabána, o nome de nosso estádio sempre sai Maracáná. São Paulo é Sáo Paulo, eu sou Guimaráis.

Nossa vantagem não é grande, mas avantajado é nosso exibicionismo de  “cueca-cuela” (até a nível presidencial!), que nos leva à audácia de “falar” no idioma irmão como se igual fosse.  Para nossos amigos de fala hispânica sempre recomendo este teste-armadilha, para quando queiram dar-se ao trabalho de desvendar a ignorância de brasileiros pernósticos, metidos a falar seu idioma. Basta pedir para traduzir:

“El presunto blanco del tirador era el huesito del hocico del osito”.

 Escrito assim, é mais fácil, mas falado, o teste é infalível. Foi desenvolvido por meu saudoso colega Luiz Antonio Jardim Gagliardi, linguista ocasional, quando em posto em Buenos Aires.