Permeira veiz

Renato Prado Guimarães

Na interessada esperança de um futuro convite, nem mesmo apliquei aos botonistas culpados (Crônica anterior) minha advertência preferida a infratores primários. Que era simplesmente contar uma anedota que li no grande Mario Palmério, um dos mais inteligentes e sensíveis arautos de nossa rica e sábia cultura caipira. Não tenho como conferir, sem os livros à mão, mas era mais ou menos assim que eu a narrava, já bem enfeitada, aos funcionários faltosos:

Findo o casório, na igrejinha do arraial, o noivo bota a noiva na garupa da mula e lá vão, ditosos, rumo à lua de mel e à casinha que haviam preparado para si e sua esperada prole. Uma boa légua, morro acima, morro abaixo. Nem trezentos passos haviam caminhado e a mula, de repente, empaca. Empaca e não quer mover-se, por mais que o noivo a espicace, esporeie, xingue, ameace. Impaciente, ele apeia, chuta, puxa, empurra, até que, majestosa em seu capricho, a mula resolve continuar.

Ele adverte: “Permeira veiz!”, e pula na sela, mais atento agora à mula, menos aos carinhos da noiva enlevada.  Outros tantos passos e a mula empaca de novo. Ele não perde tempo, salta e recomeça a litania dos empurrões, chutes, xingamentos, ameaças. Nada. Os minutos passam, o noivo cada vez mais constrangido, ante a noiva e – claro – a mula. E esta só se move, altaneira, quando assim o quer.

O noivo alerta: “Segunda veiz!” e retoma seu lugar. E lá vão os noivos, persistentes em sua felicidade, tentando reatar seus sonhos, antecipar suas expectativas. Já está quase à vista a casinha quando a mula empaca outra vez.

Ele desce, apeia a noiva da garupa, tira a garrucha do cinto, murmura, solene: “Tercera veiz!”, e dispara na cabeça da mula. Que falece no ato, desta feita sem birra, sem pirraça.

Quando o noivo devolve a garrucha à cintura, e se apresta para retomar o caminho de casa, a pé, a noiva explode em queixas e reclamações: “Vosmicê  é maluco. Acabô com nosso único patrimônio. Só di raiva, mais caprichoso qui a mula! Quem vai agora puxá o arado, a carroça, levá a gente ao arraiá? Bem me aconselhou a mãe a não casá com vosmicê. Todo mundo sabi que vosmicê num presta. Nunca achei qui  ia me arrependê tão logo!”. E por aí foi ela, sem peias.

O noivo espera que ela se canse e, quando termina, mira-a firme nos olhos e simplesmente adverte, muito calmo:

Permera veiz!”.

Foram felizes para sempre.

A estória é muito boa, em si e como advertência funcional, amigável e eficaz. Raramente precisei chegar à “segunda veiz”, e jamais tive de recorrer à última instância – a letal “tercera veiz”, que abotoa a estória.