Prisioneiros alemães no Brasil

Renato Prado Guimarães

Quem costuma almoçar, ou jantar, num dos restaurantes da rede Windhuk, em São Paulo, dificilmente saberá que o nome do estabelecimento vem de um navio de passageiros e que o estabelecimento foi fundado por um ex-prisioneiro alemão no Brasil, aqui internado em campo de concentração.  A informação é hoje mais corrente (a INTERNET vai diluindo o inesperado), e até livro (soube pela NET) existe sobre o assunto. Mas surpreendeu-me, nos anos 1960, saber a história do navio, amplo e moderno para sua época,  que fazia a rota da Namíbia e veio aportar em Santos em 1939, à falta de outro destino seguro quando a guerra estalou na Europa. Em 1942, ao entrar no conflito mundial, o Brasil aprisionou a tripulação e a distribuiu por “campos de concentração” improvisados em Escolas Agrícolas no interior de São Paulo, sob a guarda de contingentes da antiga Força Pública mas comandados por engenheiros-agrônomos formados na Luiz de Queiroz, em Piracicaba.

Os prisioneiros levaram vida boa nas fazendas-modelo da Secretaria da Agricultura. Tinham suas próprias hortas, criavam galinhas e pequenos animais, para as necessidades de médico e dentista eram levados às cidades mais próximas sob escolta da Força Pública. Com cujos soldados chegaram a ter algumas escaramuças, benignas, em torno de ovos furtados e por força de exageros de cachaça. Christiano Vianna, meu sogro, foi Diretor do “campo” de Guaratinguetá e se deliciava contando a respeito. Minha ex-mulher, Alba Maria, já falecida,  tinha recordações gratas de sua infância na companhia amena dos prisioneiros, da qual conservou algum conhecimento do idioma alemão. O confeiteiro de bordo era o cozinheiro da residência do Diretor – e muito bom, segundo depoimento unânime e saudoso da família. A cada mês vinha o Cônsul da Suíça pagar aos prisioneiros seus soldos regulares na Marinha Mercante alemã.

Mais do que essa experiência prazenteira, e bem remunerada, tiveram os prisioneiros o benefício ímpar de não precisar lutar no conflito que conflagrava seu país e o mundo. Ninguém fugiu, claro.  Muito pelo contrário. Uma das histórias de meu sogro era sobre dois prisioneiros carregando de volta ao campo sua guarda, embriagada na cidade com aguardente que eles próprios haviam pago. Do campo de concentração brasileiro não havia por que escapar. Muito pelo contrário.

Tão boa a vida que, finda a guerra, todos os prisioneiros de Guaratinguetá decidiram permanecer no Brasil. Só um, que a família identificava como o comissário político de bordo (ou “o espião”, na visão romanceada das crianças) voltou à Alemanha. Dos que ficaram, um ex-prisioneiro fundou o primeiro Windhuk em Moema, na Parada Vila Helena do bonde de Santo Amaro, hoje Avenida Ibirapuera, quase esquina da Eucaliptos. O estabelecimento original foi depois adquirido por um empregado, alemão-brasileiro de Santa Catarina, que o expandiu, formou a rede e passou a cultivar o passado histórico da casa, inclusive promovendo reuniões dos ex-prisioneiros nos locais de seu bucólico cativeiro .