Já tratei disso ao lidar com o tango brasileiro. Mas adiante vai a peça original:
Luis Lacalle Herrera, outro Presidente e grande orador uruguaio, era mais exaltado em sua oratória, de expressão vigorosa e frequentemente hiperbólica. Certa vez, ao celebrar a importância extrema da Hidrovia Paraguai/Paraná, começou a descrevê-la a partir de Montevidéu e Buenos Aires, no estuário platino, volteando para o Norte em Rosário, pela calha do Paraná, passando entre Corrientes e Resistência, ladeando as cataratas do Iguaçu, esquivando adiante as turbinas de Itaipu, girando à direita na Hidrovia Tietê-Paraná, remontando o notável rio das Bandeiras até arribar na grande metrópole paulista.
E eis São Paulo “ciudad ribereña del Plata!”.
Esse arroubo oratório - e geográfico - não foi publicado, que eu saiba; mas sou testemunha, ocular e auditiva. O cenário era o Palácio Taranco, em Montevidéu, a ocasião uma condecoração ao Presidente Menem a propósito de entendimento provisório alcançado por Uruguai e Argentina com relação à navegação no estuário platino.
Ante aquela incorporação retórica de minha cidade, senti-me tentado a pedir a palavra a fim de felicitar o inventivo orador e endossar, com admiração, sua metáfora visionária e generosa. Ao mesmo tempo, contudo, argumentaria que, a ser São Paulo ribeirinha do Prata, na Hidrovia, Carrasco e a Boca serão, necessariamente, por simetria, marginais do Tietê, do Pinheiros. E então proclamaria, sonoro, ante argentinos e uruguaios, que o tango será assim ainda mais brasileiro!
Exagero retórico? Não sei. A meu juízo, há que levar em conta a consistência lógica inegável no raciocínio, pois a hidrovia, por definição, associa as águas dos rios que a integram numa entidade singular, de personalidade política e expressão econômica próprias, aproximando seus extremos demográficos e com isso transtornando os conceitos estratégicos convencionais a eles antes aplicados.