Nem todo seqüestro foi tão tranqüilo. Houve colega que passou tempo demais num avião de pouco fôlego, pulando de aeroporto em aeroporto, com número desconfortável de seqüestradores tomando conta da cabina, nervosos, inseguros. Acho mesmo que dias, talvez uma semana. Acabou a comida e a bebida, os toilettes se emporcalharam, a tensão era permanente, armas automáticas à vista todo o tempo, em mãos trêmulas. Pânicos sucessivos entre os passageiros, e também entre os sequestradores - a combinação de maior risco. O avião tem pane. Precisa de reparos. É preciso esperar que venha do Brasil uma peça. Mais horas, dias de espera ansiosa, tensa, sacrificada. Mais fome e sede, mau-cheiro e medo. Em Havana, não puderam descer. Tiveram de seguir viagem, sem os sequestradores mas também sem comida e bebida, cheirando mal.
Finalmente, chega o avião a território brasileiro.
Conta a lenda que na perna anterior do acidentado vôo, o colega julga ter encontrado a explicação para tanta falta de sorte. Era portador de uma carta de autor conhecido por não transmiti-la - a sorte; muito pelo contrário. Pisando solo pátrio, finalmente, mas ainda com algumas horas de vôo à frente, até seu destino, resolve livrar-se da missiva inefável. Desce a terra e joga fora o envelope.
Mas nesse gesto o surpreende um sargento da Aeronáutica, do pelotão que recebia a aeronave e a guardava. Uma carta num avião vindo da Cuba fidelista, seqüestrado, e da qual um passageiro tenta livrar-se!
Eram tempos ainda de ditadura e rebelião. O militar interpela de imediato, truculento, o colega supersticioso, brandindo diante dele a carta comprometedora, que recolhera do solo pátrio. Extenuado, e novamente encurralado, o colega já antevê o Inquérito Policial-Militar, e não vê outra saída senão a de contar a pura verdade, embora ridícula, inverossímil. Conta. O sargento, ao saber da história, mais ainda se inquieta e troveja. Ao mesmo tempo, porém, atira o mais longe que pôde a indesejável missiva, exorcizando, em pânico:
- “T’esconjuro!”
O colega se livrou do possível IPM mas não escapou de uma severa admoestação do sargento, indignado ante os riscos insondáveis a que havia sido irresponsavelmente exposto.
Conta a lenda...
Já depois de deixar o Governo, o Presidente Sarney foi a Caracas, a fim de participar de um encontro de ex-Presidentes organizado pelo Presidente Carlos Andrés Pérez. Não escapou das honras de Chefe de Estado, com que o Governo local insistiu em homenageá-lo. Foi ao Palácio Presidencial, de Miraflores, entrando pela porta principal. Finda a entrevista com o Presidente amigo, foi encaminhado pelo Protocolo venezuelano para outra porta, também nobre, onde esperava o comboio oficial que o levaria de volta à Residência da Embaixada. Deu voltas, estendeu a conversa, relutou, voltou, empacou, e não saiu pela nova porta. Custou tempo descobrir-se que preferiria sair pela mesma porta por que entrara. No que acedeu prontamente, e divertido, o Protocolo venezuelano, logo remanejando os veículos à espera.
Sarney é o alegado protagonista, aliás, deste diálogo admirável com jornalista de Brasília:
- Presidente, o senhor é supersticioso?
- Sim, sou. Muito.
- E que superstições o senhor tem?
- Todas!