"Wrong Side Story”

Renato Prado Guimarães

Anos 1980. A última Primeira Dama do regime militar, Dona Dulce Figueiredo, adorava Nova York e veio algumas vezes à cidade, acompanhando o marido e/ou acompanhada de amigas chegadas. Certa vez as amigas a convenceram a ir à Broadway, para ver “Evita”, o controvertido musical. Aconselhei que não fosse. Uma Primeira Dama do Brasil não deveria ser vista em apresentação que muitos consideravam um escárnio ao país amigo, o deboche de uma de suas legendas mais recentes e amadas, mesmo veneradas – também uma Primeira Dama.

O conselho foi bem aceito, até com corteses agradecimentos, mas só provisoriamente; dias depois, militar emissário da Primeira Dama me vem dizer que ela havia informado as amigas, e estas, irritadas e persistentes, outras amigas, em Brasília, que por sua vez falaram com altos chefes do Itamaraty, os quais teriam achado exagerada - e atrevida - a opinião do Cônsul (interino, por sinal). Pedi-lhe os nomes dos Chefes em apreço, com os quais gostaria de trocar ideias, mas ele, impaciente, preferiu escalar a conversa para a chave de galão – ou de quatro (cinco?) estrelas: a Primeira Dama vai ter então de falar com o marido (em Brasília)  para ele mudar sua opinião. Também subi o tom, elevando o fuxico do plano das intrigas cortesãs para o das razões de Estado. Não deixaria de cumprir, claro, e à risca, as instruções que o cônjuge-Presidente houvesse por bem determinar-me, tão logo as recebesse oficialmente, por intermédio de meu Ministério.


Essas instruções nunca chegaram. A Primeira Dama havia conseguido domar as amigas futriqueiras, a queixa não chegou a ser formulada ou o Presidente me havia dado razão?


Passaram-se poucos dias antes que o mesmo emissário voltasse a contatar-me para dizer que a Primeira Dama seguia em seu propósito de ir à Broadway, com as amigas, ainda que fosse para ver outra peça. E me pedia sugestões. 

Consultei alguns colegas mais atentos aos musicais, e chegamos à conclusão de que o ideal seria o clássico “West Side Story”, peça belíssima, na música e na coreografia – calcada no “Romeu e Julieta” de Shakespeare e também de moderno conteúdo político-social, expressivo do drama universal das migrações e dos preconceitos étnicos arraigados.

Ao final do primeiro ato, contudo, a Primeira Dama fez saber que suas amigas estavam detestando a peça, muito séria e triste; o que queriam ver eram “plumas e paetés”. Desejavam ir embora, imediatamente. Foi uma correria, pois os automóveis que deveriam recolher a comitiva só viriam ao final da apresentação. Enquanto se esperava, a Primeira Dama e suas acompanhantes caminharam até a vizinha Times Square, a fim de dar uma olhada em como se apresentava à noite a luminosa praça – nem pela luz intensa menos perigosa.

Felizmente, no caso, como tanta coisa na Nova York daquela época, o serviço de transporte VIP era controlado pela máfia: alertados para os riscos que as personalidades estrangeiras corriam, e decerto alarmados pelo que lhes poderia acontecer em seus próprios domínios, os operadores da locadora conseguiram em pouco tempo alertar os motoristas para que voltassem de imediato ao teatro – retorno transformado, àquela altura, em missão urgente, de resgate e salvamento.

Não se falou mais de Broadway naquela visita. Mas por muito tempo perseguiu-me a dúvida íntima: não teria sido excessivo, e talvez mesmo arrogante e caprichoso, em minha oposição a “Evita”? 


Uma noite, mais tarde, durante uma Assembleia Geral das Nações Unidas, fui eu próprio ver a peça, acompanhando colega que viera para a reunião. Ao começar a apresentação, percebo que atrás de nós se encontravam dois Embaixadores brasileiros, altas autoridades de nosso Ministério, chefias sensíveis e sensatas, que admirava e respeitava. Trocamos discretos acenos, eu logo pensando: se eles estão aqui, eu devo ter exagerado, sim, em minha teimosia em desaconselhar a  vinda da Primeira Dama. Ao ter início o segundo ato, contudo, um dos Embaixadores bate em meu ombro e sussurra: “Vimos que o Chanceler argentino está também aqui, com a delegação deles. Vamos sair já, de mansinho, no escuro, para que eles não nos vejam...”.

Os altos Chefes davam razão a meus temores!


A perplexidade sobre meu conselho-veto persistiu, contudo. Especulava, inseguro: se o Chanceler argentino e seus assessores se sentem com títulos para ver a peça, por que nós, os brasileiros, devemos evitá-la? Ao ver o deboche, não estarão a endossá-lo? Mas eles precisam vê-lo, a fim de saber como são representados – e ofendidos. E nós, ao meramente assistirmos, sugerimos sermos solidários do deboche? A contrario sensu, como nos sentiríamos, os brasileiros, se alguém fizesse uma peça sobre nossa Primeira Dama, e os argentinos fossem ver, para rir e divertir-se? 


E não teria sido também impaciente e intolerante ante a reação aborrecida das convidadas à trama “muito séria e triste” de “West Side Story”? Em apresentação publicitária de empresa que vende ingressos para a Broadway, encontrei depois esta descrição: “West Side Story permaneceu por mais de meio século uma peça pungente, provocativa e emocionalmente devastadora”. Bem como esta advertência: “Deixemos bem claro: o público da peça, qualquer que seja sua idade, deve ir vê-la munido de muitos lenços”. Uma choradeira só.

Com o tempo, esqueci.

E “Evita”, ao invés de ser vista, como no início, como uma provocação e um escárnio, galgou à categoria dos clássicos da Broadway, tal como sua canção se tornou um monumento musical de nossos tempos, um hino da renúncia conformada,  desolação resignada e universal solidariedade:   


“Don’t cry for me, Argentina”.