Bicicletas casadas. E separadas?

Em meus tempos de criança (1945-1955), as marcas mais comuns de bicicleta eram a Philips e a Hércules. Ambas importadas da Europa, sempre na cor preta, com singelos frisos em branco, sisudas também nas formas do quadro,  dos guidons, dos para-lamas e daqueles protetores de corrente nos modelos femininos, para não prender as saias. A Monark apenas começava, mas enfrentando geral má-vontade, em virtude do breque de pedal, do qual se conhecia, aqui, apenas o empregado nas raras “bikes” americanas que apareciam, em geral vindas na mudança de alguém, pois não havia importação regular. A Caloi também era incipiente, mas havia quem questionasse seus freios acionados por cabos flexíveis, “à italiana” (copiavam os da legendária Bianchi) e “enguiçáveis”, ao contrário dos breques ingleses e alemães, de metal rígido, articulado em sólidas dobras, do guidon até as sapatas calcadas sobre os aros das rodas, atrás e adiante.

Minha primeira bicicleta foi uma Philips - aro 28, que eu sempre fui meio alto. Com ela palmilhei palmo a palmo (olha a redundância!) as ruas de meu bairro (em algum lugar já escrevi, nestas Colinenses: Vila Uberabinha, no caminho do Brooklyn, “onde hoje é chique morar mas se chama Moema”), bem como das adjacentes vias até Santo Amaro, também beirando o rio Pinheiros, onde ia nadar (sim, nadei no Pinheiros ainda despoluído!), e mais, do lado da cidade, até Vila Mariana e os Jardins); com ela ia à escola, distante uns 7 km, diariamente. Serviu-me muitos anos mas veio o dia em que o saudoso tio Octávio (Mazzei Guimarães) resolveu dar-me uma nova de presente. Mandou-me ir à Mesbla, na 24 de maio, para escolher; dono de uma loja de ferragens em Presidente Prudente, ele tinha conta lá. 

Que festa, a escolha! Acabei com uma Hércules de pneu “balão”, aro 26 e câmbio – um pioneiro câmbio “torpedo”, daqueles embutidos no cilindro do eixo traseiro e com três marchas. 

Não sei as razões da escolha meio esdrúxula (por que o pneu balão, por exemplo?). Talvez quisesse me exibir no passeio da meninada (muita menina bonita!; tenho saudades de minha infância querida...), toda tarde ali na Eucaliptos, trecho do lado de Congonhas cujo nome é hoje Imarés e onde agora tem o shopping Ibirapuera. Uma espécie de footing sobre rodas, meninos e meninas trocando tímidos olhares - eu, exibido, também trocando marchas, coisa rara naqueles tempos de catracas únicas e velocidades singelas.  Outra razão para o câmbio pode ter sido a danada da subida na Ascendino Reis, que tinha de enfrentar todo dia no caminho matinal para o Liceu Pasteur, e cuja única alternativa era a não menos exigente ladeira da Afonso Brás, vindo lá pela Avenida Santo Amaro. 

Nem sei quanto durou, a Hércules; nem me lembro, aliás, o que foi feito dela depois. Mas a marca ficou gravada, claro, em minha memória, factual e afetiva. 

Anos 2001/2002. Pela primeira vez, depois de décadas, volto a ver Hércules nas ruas, abundantes, muito populares em Frankfurt. Fui comprar uma bicicleta para explorar os planos caminhos da cidade, e as pitorescas ciclovias de seus arredores, e não deu outra: encantei-me por uma Hércules, esta com quadro em formato esportivo, colorida em azul, com delicados pormenores em prata, os freios de cabo flexível e o câmbio Shimano àquela altura mandatório, de 21 marchas. Comprei.

    Tive uns problemas sérios de saúde, ligados a minha diabetes.  O médico do Consulado não hesitou um momento: você tem de ir ver a Doutora Bettina, lá em Eschborn (bairro satélite de Frankfurt). Lá fui eu. E dei-me bem; não só era uma médica inteligente e extremamente competente, como também se tratava de uma mulher singularmente bela e atraente (minha filha mais nova, de outro casamento, proclama  que é a alemã mais bonita que já viu; dou-lhe razão, sem reservas). 

Em dois tempos ela resolveu meus intrincados problemas de saúde. Um dia, combinamos fazer um passeio ao longo do Nidda, até Hoechst, onde aquele simpático rio desemboca no volumoso Meno, por sua vez afluente do Reno histórico. Marcamos encontro num dos amenos parques-jardins de Frankfurt, o Buga.

Quando nos encontramos, a surpresa: nossas bicicletas eram absolutamente iguais, na marca, nas cores, no modelo. Diferiam apenas em que a minha era para homem, a dela no modelo feminino. Se bicicletas contraíssem matrimônio, formariam decerto o casal perfeito. Comentamos a coincidência, mas sem aflorar, discretos e meio encabulados, seu aspecto propiciatório para os namorados incipientes. Nem precisou, pois logo mais nos casávamos, Bettina e eu.  

Muitos quilômetros rodamos, eu e ela, e o par de bicicletas, por toda essa belíssima região de Hessen e do Palatinado, descendo e subindo o Nidda, o Meno, o Reno, vias históricas salpicadas de castelos – guerreiros mas nem por isso menos bucólicos, como as cidadezinhas a sua volta. E ladeadas, as vias fluviais, de muita vinha – sobretudo ali no Rheingau, depois de Wiesbaden, berço do riesling. Leon, o enteado mais novo, de inteligência brilhante e sempre interessada, em geral nos acompanhava. 

Quando fui para o Japão, levei a bicicleta. Mas para quando vinha passar algum tempo em casa, em Frankfurt, comprei outra - absolutamente igual. 

Quando voltei do Japão, para residir novamente em Frankfurt, fiquei com duas bicicletas idênticas. Acabei dando uma a meu enteado maior, o Philipp (da marca rival, bem encorpado mas sem chegar a ser Hércules), conservando a original.

Sai o caminhão com o container de minha mudança para Colina. Primeiro esquecimento de que nos lembramos: a bicicleta! Pois não é que ela ficara na garagem, lado a lado com seu par feminino, de minha já ex-mulher! Na Alemanha é comum se amarrarem duas bicicletas para tornar mais difícil o furto; pois nossas Hércules ficaram acorrentadas uma à outra, casal mais persistente do que seus donos... 

Bettina nem deve ter percebido. Mas eu lhe entreguei com muita relutância e emoção minha chave da corrente que mantinha as duas bicicletas juntas. 

Depois, não soube. 

Será que se separaram?

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