Botão-arte em Frankfurt

Nas conversas de negócio,  pra botar banca e mostrar intimidade com as fontes do poder, há sempre quem  aluda a seus possíveis apoios como “grandes amigos meus: jogamos golfe uma vez por semana”. Durante algum tempo, o esporte de prestígio, de elite e dinheiro, era o tênis; amanhã poderá ser o polo... Ou algum outro, inesperado. Num encontro com empresários, em São Paulo, já aposentado, lembrei-me de amigos de Frankfurt que poderiam ser de valia numa operação de que se cogitava, de alto interesse pro Brasil. E a eles me referi, casualmente, para valorizar a amizade: “Jogo sempre botão com eles”.

Um desastre. A conversa de negócios, promissora, esvaziou-se, a operação comercial foi prontamente esquecida. O prosaico botão passou a dominar a berlinda, e por longo tempo. As perguntas vieram em cascata: em Frankfurt? Botão mesmo? De fábrica ou de roupa? Plástico, acrílico? O goleiro ainda é aquela placa pequenininha, que se manobrava com um arame encaixado atrás? Ou é de caixa de fósforo, chumbada? E as regras? Um, dois, três toques, ou se mantém a posse da bola sempre que se toca nela? A bola: é redonda, ou chatinha, botão de camisa ou de cueca? De feltro, de acrílico? Jogam no chão ou em mesa? E quem joga? Só brasileiro, ou alemão também? Como são os campeonatos?

Prestados os esclarecimentos devidos, começou aquela conversa de pescador, sobre façanhas de infância. Houve quem dissesse que sua especialidade era fazer gol olímpico (!), outro falava de como tinha um botão especial, alto (do capote do avô), que marcava gol de cabeça. Eu, claro, para não ficar atrás (não nos feitos, mas nas lorotas), não me furtei de contar os gols de bicicleta que havia marcado em priscas eras (o artilheiro se chamava Leônidas e era o botão de uma capa também avoenga, muito convexo, acionado de barriga côncava para cima, inventei para explicar aos incrédulos).

Saudável. Relaxante e rejuvenescedor.

Nas partidas de Frankfurt, a discussão e as provocações eram de regra, e acaloradas, embora sempre amistosas. Tanto se questionaram as regras, e tanto se maltrataram as três principais observadas no Brasil (a pernambucana, a carioca e a paulista), que resolvemos combinar nossas lembranças de como jogávamos décadas atrás e elaborar uma regra própria, ecumênica. O subgerente do Banco do Brasil empregou todo um fim de semana redigindo o que ao cabo foi batizado de “Regra Frankfurt”. A apurada tecnologia de manuais do Banco virando embrião de norma esportiva internacional...

Os estádios eram de fabricação brasileira, o “Marcão”, para os adultos (era do Marco, da Boehringer), e, para as crianças, o “BBzão” (pertence ao supracitado craque do BB). Os times eram comprados no Brasil, via Internet. O meu, fui escolher e contratar pessoalmente, numa fabriqueta em São Paulo, que anuncia na web sua capacidade de produzir times de todo o mundo, incluídas as seleções nacionais. Meu fornecedor só vendia por encomenda e não tinha para pronta entrega o time de minha predileção em São Paulo (com muita saída, favorito do público e que não declaro, generoso, para não causar ira aos corintianos, palmeirenses e santistas, nem humilhá-los);  improvisou, contudo, trocando a camisa (mudando os rótulos) de um time encalhado da seleção dos EUA, também de fundo branco. O goleiro vem em acrílico transparente, formato caixa de fósforos, com a imagem do titular a cores. Pena que a Regra Frankfurt não permita que goleiro bata falta... Cartolagem.

Na citada loja me falaram de compras  de toda parte, vi encomenda sendo empacotada para remessa a Cingapura.  Ali também aprendi o uso de lixas e lubrificantes mágicos para fazer os botões deslizarem com mais facilidade e precisão. Soube igualmente de inovações tecnológicas promissoras para aprimoramento do desempenho botonístico, como a dos  jogadores “resinados”.

Aos curiosos, e saudosos, recomendo pesquisar por “futebol de botão” na web. Vão se surpreender com o número de sites dedicados ao nobre esporte, tratando com toda a seriedade de regras, campeonatos e campeões, e anunciando produtos variados para sua prática, dos botões, palhetas, lixas e deslizantes, bolas e traves, aos troféus e diplomas – que ninguém joga de graça e sempre impressionam e dão prestígio aquelas testemunhas concretas da augusta glória botonística.

Botão não é brinquedo, não. É esporte, competição.  E também arte.

Botão-arte...

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