Corrigindo promoções

Nutrida missão brasileira na cidade, para reunião multilateral: o próprio Ministro de Estado, seus Assistentes, Embaixadores e Ministros Chefes de Área, Conselheiros e diversos Secretários assessores seus.

O Embaixador local pede que todos venham à Embaixada para reunião informal no dia seguinte. Pergunto-lhe para quê, a fim de informar o Ministro. Ele se esquiva e fica num intrigante “na hora você vê…”. Diplomata respeitadíssimo, e respeitoso, ele, deixo passar a omissão inesperada e o Ministro acede sem questionar quando lhe falo sobre o compromisso não agendado.

 

Na hora aprazada, lá estamos e o Embaixador nos reúne numa sala já previamente lotada pelos funcionários todos da Embaixada - diplomatas, pessoal de apoio, até contínuos e pessoal de limpeza vi.

 

E aí ele explica:

 

"-Aproveitei a presença de Vossa Excelência na cidade, Senhor Ministro, para permitir que todos os funcionários da Embaixada o conhecessem pessoalmente. Mas também me senti no dever de nos encontrarmos a fim de que eu pudesse apresentar-lhe um funcionário excelente, excepcional".

 

(Houve quem me recordasse que a apresentação foi na verdade "do melhor funcionário desta Embaixada!". Não me lembro bem, mas não percebi reação magoada dos Ministros e Conselheiros de superior hierarquia caroneados na avaliação de seu próprio Chefe, segundo aquela lembrança alheia; pelo contrário, impressionou-me a alegre concordância fisionômica deles ante a suposta  primazia celebrada - ou com o desmerecimento consequente de outro colega nas promoções questionadas...).

 

(Pausa, enquanto a audiência, perplexa, se prepara para o clímax-surpresa).

 

E o Embaixador retoma, ordenando:

 

"Secretário Fulano X,

Adiante, apresente-se ao Senhor Ministro!"

 

O fulano excelente e excepcional, também modesto, mesmo tímido, tropeçou duas vezes no tapete antes de estender a mão ao Ministro - ambos desconcertados, como eu próprio e toda a plateia.

 

No entrementes, o Embaixador acrescenta:

 

"- Nosso funcionário excepcional (o melhor?) foi preterido nas últimas promoções, Senhor Ministro, em benefício de outro diplomata da Embaixada".

 

 (Também presente, o promovido injustamente; o Embaixador nem mudou o rumo do olhar para denunciá-lo, mas toda a Embaixada o fez, acintosa, proclamando prontamente sua identidade menos merecedora. A bem dizer, ele próprio se revelou, encolhendo-se todo).

Enquanto isso, o Embaixador arrematou:

 

"- Foi uma patente injustiça, que nos chocou e entristeceu a todos. Só o Senhor pode repará-la, Ministro, nas próximas promoções!"

 

Perplexo, o Ministro (de fora da Casa) depois me pergunta:

 

"- Isso acontece sempre?"

 

Respondi, ainda atarantado, sem fôlego, pasmo:

 

"- Não, Ministro! Que eu saiba, aconteceu hoje pela primeira vez na história do Itamaraty. E faço votos para que nunca mais aconteça! Ufa...! Se a moda pega…"

 

Na verdade, fiquei furioso ao saber tardiamente da carona. Graças a minha posição, então, no Ministério,  as listas de candidatos à promoção passavam por mim e eu não deixaria nunca de notar a carona de que o fulano excelente viria a ser vítima, nem de tentar repará-la, pois o excepcional da Embaixada trabalhara comigo em três postos, em Brasília e no exterior, e eu o tinha como dos diplomatas novos mais competentes e irretocavelmente dignos da Carreira! 

 

(Eu devia estar em viagem no exterior quando a relação dos escolhidos subiu ao Ministro).

 

Fulano X, excelente e excepcional (o melhor?), alguém cujo pai era dos mais altos (e também discretos) Chefes militares durante a “Redentora” e nunca interveio em prol do filho em sua carreira no Itamaraty, como tão frequentemente acontecia com outros colegas e parentes de farda. Suspeito que tal omissão paterna por imposição do próprio Fulano X, de integridade ímpar. Talvez, ao cabo, por íntegros tanto filho como pai.

 

Claro que na rodada seguinte de promoções o excelente excepcional ascendeu à classe superior. Disso cuidou, zelosamente, o próprio Ministro, até mesmo lembrando-me de não deixar que esquecesse. Esquecer? Como, depois  da singular e audaciosa cobrança prévia e pública  na Embaixada? 

 

Quem eram, o Embaixador, o Fulano X, o pai? Não me pareceu apropriado usar esta plataforma coletiva para nomeá-los. Mas ante consultas no bilateral não resistirei a satisfazer discretamente a eventual curiosidade dos amigos.

 

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