Escocês no armário

A moda era beber uísque. Moda apreciada, de per si, tanto quanto por seu objeto líquido e saboroso. Caríssimo no comércio regular, quem podia mandava vir de Belém, o grande entreposto do contrabando na época. Outros tentavam encontrar sucedâneo em esplêndidas cañas paraguaias (lembro-me da sóbria Aristócrata e de um também apetitoso rocinante alcoólico, a “Cavalinho”), ou se entregavam, sem outros meios, às marcas nacionais, dentre elas o controvertido Drury’s, áspero mas leal e acessível. Intrigante era o desprezo a que nossa cachaça era relegada.

Ao sair para o exterior, os diplomatas novos (claro que no Brasil da turma do Drury’s), descontavam aquele infortúnio etílico se iniciando nos diversos néctares escoceses a que passavam a ter acesso; chamava-se tirar o fígado da miséria. Por sinal, a barriga também, nessa primeira saída, pois a remuneração no Brasil mal dava para pagar o apartamento “já-vi-tudo”, cujo nome já tudo explica: da porta de entrada se enxergavam todos os cômodos. (Daquele tempo é esta estória: Minha mulher pede dinheiro para as compras; não tenho, e o digo, de mau-humor. Ela insiste: “Então que é que vamos fazer?” Encurralado, impotente e impaciente, respondo, malcriado: “Vamos passar fome, uai!”. Ao que ela treplica: “Mas você ainda não percebeu que já há uma semana estamos passando fome?”).

Em meu primeiro posto, Bruxelas, chegamos, juntos, quatro jovens Terceiro-Secretários(três para a Missão na então CEE, eu prá Embaixada); dois deles (Bambino e eu) logo organizamos nossa sede de novidades e a forma mais expedita de saciá-la, assim como a dos dois outros, menos empreendedores mas nem por isso menos sedentos (Paulo Dirceu, Marcelo Didier). Descobrimos em Antuérpia uma loja de “duty free” que vendia garrafas avulsas, a preço mínimo (acho que abaixo do Drury’s no Brasil!) e dispensando a exigência mais dispendiosa da encomenda por caixas. O colega e eu nos repartimos a extensa lista do catálogo, selecionando e comprando duas garrafas de cada marca escolhida para satisfazer nosso paladar ansioso ante a fascinante diversidade, e compartilhando o lote entre nossas incipientes mas ambiciosas adegas. Uns dez “brands”, ou mais, com diferentes apresentações, embora das marcas modestas, mais em conta; os “Chivas”, “Black Label”, os maltes puros eram coisa para veteranos abonados. Ainda assim, era uma celebração de sabores para nós, provadores curiosos e inexperientes antes que deliberados consumidores etílicos.

Chegou o dia do jantar para o Embaixador (Antonio Borges Leal de Castello Branco Filho, o “Castellito!”). Naquele tempo era regra não-escrita que 1) o Chefe do Posto fosse consultado sobre a residência que o diplomata se propunha alugar, para certificar-se de que o imóvel estava em bom nível, à altura das exigências do serviço diplomático brasileiro; e 2) que o Chefe do Posto, com sua mulher, fosse recebido para um jantar logo após terminada a instalação, a fim de que se certificasse igualmente se os recém-chegados estavam preparados para representar bem seu País.

Já nos aperitivos, ao oferecer-lhe um uísque, sugiro ao Embaixador uma marca corrente, acho que “Black & White”, nem tão popular à época. Aceita, saboreia umas gotas com a moderação que lhe era em tudo inata. Elogia educadamente mas comenta, divagando sobre o amplo espectro da fidalga produção escocesa, uma “piece of conversation” então onipresente: “Não sei por que, mas tem um uísque que me desperta sempre a curiosidade e que eu nunca tive a oportunidade de provar”.

Confiante em minha variada adega de principiante, perguntei, solícito: de que marca? Ele respondeu “Cutty Sark”, relativamente pouco conhecido. Feliz, corri ao armário do quartinho ao lado, onde minhas garrafas aguardavam pronto consumo ou mais adequado e subterrâneo abrigo, e trouxe, triunfante, a garrafa com o belo veleiro no rótulo. O Embaixador prova um gole, gosta, e comenta, experiente: “Muito bom uísque, mas não daria pra servir em coquetel. É muito clarinho, os convidados acham que a gente está aguando a bebida”.

Depois discorre sobre os pubs de Londres onde é difícil encontrar o uísque de seu gosto e menciona, casualmente, outra marca que nunca havia conseguido experimentar. Se bem me lembro, “The Monkey’s’”. Não me fiz de rogado, refiz o caminho do quartinho e trouxe, álacre, a garrafa desejada, numa apresentação refinada - meio de botija de barro.

Repete-se a cena, o Embaixador apenas prova uma gota do precioso líquido, e nova curiosidade se aviva no ilustre convidado: por que será tão difícil encontrar o “Dimple”?

Desta feita respondo, apologético e polido:

“É mesmo, Embaixador. Lamento muito, mas esse eu não tenho!”.

Meu colega e cúmplice de adega, também presente (Bambino), não conteve um sorriso divertido, que logo degringola para sonora gargalhada, pois o compadre indiscreto sabia que era mentira – a minha primeira mentira profissional! No armário havia a tal marca! E em garrafa de litro!

Até hoje acho que a inspiração da mentirosa mas prudente negativa salvou minha carreira. Ou me poupou, pelo menos, de algum dissabor na relação com o primeiro Chefe no exterior, de quem eu me tornaria grande amigo e ainda maior e agradecido admirador.

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