O santo maçom de Jaboticabal

Por que escrever, eu, ademais? Já está escrito, e por pena muito mais competente, com láurea de Prêmio Esso - a de meu falecido pai, no ainda inédito “Notícia do Mundo”.

Santo milagreiro, sim, e maçom, em Jaboticabal. Leiam:


O tio Rafael Picerni, o querido de minha mãe, fugiu da febre amarela que deu em Jaboticabal, no fim do século XIX, carregando a mulher para São Paulo e voltando para liquidar os negócios e depois asilar-se. Mas a moléstia o pegou no intervalo interiorano e ele fez parte da montoeira de gente moribunda, ou assim classificada, que as carroças municipais transportavam e jogavam num depósito pegado ao cemitério. Medida para isolar e facilitar os enterros. E o tio tão bom morreu só, e dizem que até foi enterrado ainda vivo, apesar de chefe de partido no lugar, carta patente de tenente-coronel da Guarda Nacional e mestre na maçonaria jaboticabalense. Era líder de fama até em Bebedouro, onde uma vez o coronel Manoel Antônio, já então dando as cartas, lhe ofereceu um banquete, sempre lembrado pela minha mãe. Acontece, porém, que a vovó Amália acordou exaltada uma noite, bom tempo depois, em Bebedouro, sacudindo o marido:

- Sonhei com o Rafael, todo queixoso, que enterraram ele vivo e ninguém da família aparecia para zelar do seu túmulo, todo afundado no mato e com grandes rachaduras.

No dia seguinte, ela bateu pela Paulista para Jaboticabal e foi ao cemitério velho, abandonado, pelo medo do contágio, mais psicológico do que físico. As informações do sonho conferiram. Mandou limpar o lugar, fechar as rachaduras, acender velas, rezou muitos terços, formando vários rosários, e chorou a valer. Era o seu irmão predileto.

Verdade ou não, o fato é que muito mais tarde, lá pelas bandas de 30/40, o nome de Rafael já deslembrado em Jaboticabal, um rapaz da cidade, que nunca ouvira falar dele mais gordo, teve o mesmo sonho que a vovó Clara, com as adaptações de pessoa. Falou com o pai assustado, o velho era maçom e ruminou:

- Se era importante, devia de ser maçom.

Fuçou os arquivos e lá achou o nome de Rafael, com o sobrenome certo e as importâncias que teve. Chamou colegas da Maçonaria, reuniram-se, foram ao local e deram com o túmulo, ainda ostentando a placa de tenente-coronel, posta em homenagem de saudade pelos irmãos. Mas trincado, sujo, num matagal do velho cemitério largado. Limparam tudo, estudaram o caso e ficaram sabendo do destaque de Rafael nos fins do Século XIX, sobretudo no terreno político e filantrópico. Removeram os restos mortais do lugar, limparam o cemitério velho, ergueram outro túmulo em ponto próximo, construíram uma capela por cima (muitos maçons eram também católicos, e se não fossem, as mulheres, que eram, obrigariam), e da velha catacumba só ficou na moderna a saudação fúnebre dos irmãos.

Pois a notícia transpirou, a Maçonaria mandou fazer um galpão perto para as suas reuniões mais solenes e menos secretas, e os católicos das redondezas começaram a fazer romarias no aniversário da morte-viva do tio Rafael. O menino, feito homem, andou pôr lá duas vezes e verificou o movimento: havia muletas, reprodução de braços e outras bugigangas lembrando milagres alcançados. A notícia espalhara-se mundo além, e o tio virara um santo. Naturalmente havia gente explorando a legenda, e disso parece que nem escaparam alguns Picerni remanescentes na área. O fato é que desce até gente de Minas, no dia sagrado, para fazer ou pagar promessa; e, como se sabe, no que mineiro fia ninguém desconfia...”


Isso aí foi escrito no fim dos anos 1980. Da segunda vez que meu pai foi, sei lá quando, fui eu quem o levei; também vi o relicário dos milagres!  Como estará hoje? O que me incomoda mais na estória, como a meu pai, são os mesmos sonhos, minuciosamente iguais, com nome do morto e tudo, em épocas tão distantes e de pessoas distintas, sem qualquer ligação ou conhecimento mútuo. 

Tio santo...  

Curioso é que sobrinho dele, do mesmo nome, Rafael Picerni, amolou-se com essa santidade.  Agnóstico, fugia do tema como o diabo da cruz. Era médico de alto conceito em São Paulo, Diretor clínico do Hospital Italiano, depois Matarazzo.  Meu pai arremata:

“O Rafael incréu era a bondade em pessoa, médico de meia família, fazia madrugadas para atender doentes repentinos, não cobrava de primos de até terceiro ou quarto grau, e morreu solteirão, mas envolvido por amigas, com mais de 80 anos, atropelado. Maliciava em vida:  Imaginem justamente eu com nome e sobrenome de santo... Os amigos e parentes comentavam: Mas se ele também é um!”

Ainda vou lá ver de novo, em Jaboticabal. Posso até pedir um milagre, do que ando precisado. Rabiscador de papel, quem sabe possa pagar com uma hagiografia.


Vida de Santo maçom? Ora, por que não? Afinal, não foi o próprio “Imperador das Quatro Coroas”, D. Pedro I (Grão Mestre da Ordem, conhecido nas Lojas como Guatimozim), quem compôs letra e música do Hino da Maçonaria brasileira, embora os Andradas  suspeitassem a entidade de tramar a sublevação republicana, em nome do Grande Arquiteto?


Maçons alerta,
Tende firmeza,
Vingai direitos
Da natureza

Do mundo o Grande Arquiteto
Que o mesmo mundo alumia
Propício, protege, ampara
A pura Maçonaria.


Só faço citar, de nosso Monarca inaugural; não é o caso de endossá-lo, pelo menos nisso. Em matéria de Hinos, era melhor de música que de letra. Nosso belo Hino da Independência é dele, mas com palavras de Evaristo da Veiga (Já podeis da Pátria filhos ...”). Já sua letra no Hino da Carta, que legou a Portugal, juntamente com a Constituição de 1826, e lá permaneceu oficial até 1910, começa assim:

Ó Pátria, Ó Rei, Ó Povo
Ama a tua Religião,
Observa e guarda sempre
Divinal Constituição.


Nunca ouvi a música. Não tem como não ser melhor.  

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